A Hyundai Amadurece
Nada de piadinhas. Com seus veículos confiáveis, a montadora Sul-Coreana é um sério competidor.
Chung Mong Koo, chairman da sul-coreana Hyundai Motor, examina cuidadosamente uma alavanca de câmbio recém desenhada para o sedan Sonata, enquanto todo o seu time de altos executivos se movimenta ao seu redor, esperando ansiosamente por sua aprovação. O nervosismo dos executivos é justificável: Os engenheiros acrescentaram uma base de plástico sob a alavanca para prevenir que café derramado ou algum outro liquido entre no mecanismo e o torne pegajoso.
É uma modificação pequena, mas ninguém a trata assim, muito menos Chung, um tipo durão e detalhista, com uma tendência para o micro-gerenciamento (“Ele ainda toma a decisão sobre o tamanho da árvore de natal que ficará no Lobby”, conta um ex-executivo da Hyundai). Após olhar a base de plástico de vários ângulos, Chung pergunta: “É suficiente?” Ele está preocupado que a engenhoca não cumpra seu papel. Finalmente, ele dá o seu Ok, mas lembra seus executivos: “não podemos permitir que nenhum defeito danifique nossos carros”.
Chung, 67, passou 6 anos martelando a mensagem de “Defeito Zero” na cabeça dos funcionários da Hyundai – e o resultado é uma das viradas mais surpreendentes da história automotiva. Alguns anos atrás, a Hyundai, a maior montadora sul-coreana, era sinônimo de medíocre. Seul era o único lugar do mundo onde era provável ver um número maior dos seus carros na rua. Hoje, a linha de sedans e SUVs prazerosamente estilosos, relativamente baratos e comprovadamente confiáveis está na cola das marcas mais célebres da indústria nos mercados nobres. Nos EUA, aonde o Sonata é uma alternativa de baixo custo para o Camry da Toyota e o Accord da Honda, as vendas da Hyundai chegaram a 419.000 carros no ano passado – um aumento de 360% desde 1998. Na Europa, as vendas cresceram 21% em 2004. Na Índia, a participação de 17% da Hyundai no segmento de carros de passageiro faz dela a maior montadora estrangeira e a segunda maior como um todo, atrás da Maruti, uma subsidiária da Suzuki. A Hyundai derruba seus competidores modificando seus carros pequenos com características engenhosas para consumidores Indianos, tais como linha do teto elevada de forma a dar mais espaço para motoristas que usam turbantes.
Talvez mais surpreendente: No mercado emergente calidamente contestado de automóveis na China, a “joint venture” da Hyundai com a Beijing Automotive vendeu mais carros que qualquer outra montadora nos primeiros dois meses deste ano. De fato, com um crescimento de 20% na sua receita bruta anual dos últimos 5 anos, a Hyundai foi a montadora que mais cresceu no mundo todo desde 1999, de acordo com a Lehman Bros. A Hyundai está “botando pressão em todo mundo”, disse Rob Hinchliffe, um analista automotivo na UBS. Na verdade, até o vice-chairman da Toyota, Fujio Cho, já reconheceu a silhueta que vem crescendo no seu espelho retrovisor: “A Hyundai tem preço e qualidade que já chamaram a atenção dos consumidores, inclusive dos nossos”, disse ele numa conferência automotiva em Agosto.
Deve ser fácil para Cho reconhecer o segredo do sucesso da Hyundai. A montadora sul-coreana está seguindo a mesma fórmula usada pela Toyota há algumas décadas para superar sua fama de “importado Asiático” e se tornar uma das marcas mais respeitadas do mundo. Quando a Hyundai entrou no mercado americano em 1986 com o Sedan Excel – uma “caixa de economia” com preço de U$4.995 – foi um sucesso instantâneo entre compradores frugais. Mas os clientes logo descobriram que estavam recebendo aquilo que haviam pago: O Excel estava sujeito a problemas de controle de qualidade e precisava freqüentemente de trocas de peças. As vendas emperraram, e a Hyundai virou motivo de chacota. Em 1998, o apresentador do “Late Show” David Letterman (apresentador de um programa de entrevistas americano, no mesmo estilo do ‘Programa do Jô’ aqui no Brasil) divulgou uma lista das 10 pegadinhas mais engraçadas para se fazer com astronautas no espaço, e a pegadinha número 8 era “Colar o logotipo da Hyundai no painel de controle da nave”. Brandon Yea, Diretor do time de estratégia de Marketing da marca, diz, “não havia nada pior do que a Hyundai”.
Mas assim como a Toyota, que venceu o preconceito dos consumidores em parte através da invenção do Kaizen, um processo de manufatura e mantra corporativo que se traduz como “melhoria contínua”, a Hyundai conseguiu aumentar rapidamente a estima por seus produtos através de uma atenção quase fanática por “Fazer Certo”. A revista Consumer Reports recentemente nomeou o Sonata o carro mais confiável nos EUA. E a Hyundai subiu para segundo lugar na pesquisa sobre qualidade inicial feita pela J.D. Power em 2004, empatada com a Honda e perdendo somente para a Toyota. Seis anos atrás, a Hyundai estava entre os piores em termos de defeitos iniciais. A revira-volta é “espetacular”, diz Chance Parker, diretor executivo da J.D. Power em Westlake Village, Califórnia. “Nós realmente nunca documentamos esse nível de mudança nesse período de tempo. Eles adotaram uma mentalidade voltada para qualidade que não tinham antes”.
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